sábado, 19 de dezembro de 2015

A Traição!


De alguma forma ela sempre soube o quanto relacionamentos eram complicados, da mesma forma que tinha completa noção dos riscos que ela correria. Afirmava que a base de um relacionamento era a confiança e na confiança se manteve por um longo tempo. Determinada a viver o amor dos sonhos, permaneceu na constante desventura de um amor exaurido e mentiras de longas datas. Ela viveu contos esparsos e doou seu amor com tanta avidez até o último segundo de toda aquela linda encenação.

Hoje ela se pergunta como ele a olhava nos olhos para fazer insistentes promessas de amor. Ela não pôde suportar o imaculado orgulho e presunção atirados na face dos sentimentos que, da parte dele, talvez nunca tenham existido.

Foi uma traição dentre tantas outras, nenhuma menos dolorosa que a antecedente, e a cada descoberta, ela podia facilmente sentir a dor aguda em suas entranhas. Algo tão doloroso não devia chegar tão depressa e de repente, sem aviso prévio, em um completo ortodoxo irrefutável, e como haveria de ser diferente? Quem imaginaria que, em uma manhã fria de um domingo qualquer, o seu príncipe encantado se tornaria o vilão? E que sua aparente vida cinematográfica, não passasse de um jogo de tabuleiro que, para ele, ela seria a peça mais facilmente manipulável?

Esse suposto amor sempre aparentou ser impossível, havia muita divergência de pensamentos e princípios, mas apesar das evidências, ela escolheu vivê-lo, até mesmo depois da percepção de tristeza que se alastrava tão rapidamente por seu corpo.

Naquela noite, ela teve um sonho no mínimo estranho, repleto de números e letras indecifráveis. Apesar da inocência ao amanhecer, não demorou tanto para sua perspicácia associá-los a sua origem. Uma senha desconexa, mas que levava à rede social de seu namorado, e assim depois de ler algumas conversas, teve as provas de que precisava.

Deturpada em uma explosão de sentimentos envolvidos pela decepção, tristeza, raiva e incredulidade, o telefone de casa pareceu tão chamativo, que em míseros segundos ela se pegou discando para a casa dele. Seu coração parecia querer saltar para fora do peito, as lágrimas ardendo em seus olhos, ameaçando cair a qualquer momento, e seu rosto queimava tanto que ela não sabia dizer em que momento desabaria. Como alguém que dizia amá-la tanto poderia agir com tamanho desrespeito e sem o mínimo de consideração? Por mais que fosse contra seus princípios, ela terminou o namoro ali mesmo, beirando as lágrimas em um momento de desolação, por telefone que seria o único meio que ele não poderia manipular com seu charme.

Os momentos seguintes foram agonizantes, o choro era como ácido corroendo seu rosto e a súplica no abandono da dor era aterrorizante, tudo que ela se permitiu fazer foi sentir cada resquício daquele momento, e então ela encontrou o chão em meio a toda angústia, simplesmente adormeceu.

Acordou estirada no chão, com o evangelho entre as mãos, enquanto a porta abria. Ele estava lá e incrédula ela o observou entrar. Sentou-se ereta no chão e sem qualquer expressão facial o ouviu dizer tudo aquilo que já sabia. Ele repetia que não a merecia e que havia sido um péssimo namorado. Chorando, ele permaneceu repetindo o mesmo contexto de diferentes formas, em meio a tapas consecutivos, que ele próprio aplicava em si ao gaguejar.

Depois de todo o drama passado e de um pedido de segunda chance, ela o concedeu e tentaram mais uma vez. Poderia se dizer que viveram uma nova história de um verdadeiro amor e fidelidade, que ele aprendeu a lição e eles permaneceram juntos até o fim, mas o que veio a seguir não passou de um desastre e a vida dos dois poderia ser facilmente comparada ao inferno.

Mesmo acreditando-se que a base de um relacionamento é a tão falada confiança, justamente a confiança era o que não existia mais. O relacionamento se seguiu de consecutivas brigas, e mesmo depois de um episódio como aquele, o namorado dela não soube aproveitar sua segunda chance.

Uma nova traição foi descoberta e o surto da garota foi maior do que ela cogitaria ser possível. Dentre as revelações, ele dizia que ela nunca conseguiria ter alguém melhor e caso houvesse um término, ela possivelmente entraria em depressão. Afirmava ainda que estava com ela por pena e como se já não bastasse a traía durante 1 ano e 3 meses que estiveram juntos.

Ela soube, com riqueza de detalhes, de cada traição e argumentos que ele usava, e notou naquele momento o quão bom manipulador ele era. Também percebeu o quanto estava infeliz ao lado dele, que a fazia acreditar que sem ele, ela se afundaria em uma tristeza eterna.

Para não sofrer mais uma vez por suas manipulações, ela terminou com o namorado sem dar argumentos, pois sabia que ele a confundiria. Permitiu-se acreditar que não tinha a obrigação de agir de forma decente, já que ele não havia feito o mesmo, assim levando a relação de reciprocidade avidamente.

Por uma segunda vez, permitiu-se sentir toda a dor que caia sobre ela, de alguma forma tão familiar, porém cada vez mais intensa. Era verdade, finalmente, acabou.  Os dias se passaram e ela tentou ao máximo se distrair, mas não pôde evitar alguns espelhos quebrados e gritos sufocados. Não pôde impedir novas lágrimas de se formarem e erroneamente se depositarem em seu colo. Ela não seria capaz de fazer o mesmo que ele, por esse motivo, não o compreendia, mas aceitou seu desastre emocional com resignação.  Depois da saudade e tristeza, vieram à raiva e o rancor, enquanto que hoje somente pena restou. Ela o perdoou silenciosamente, mas ele não queria mais olhá-la, quanto menos cumprimentá-la.

Nunca aceitou traições, mas conseguiu tirar algo positivo de toda a situação. Ela entendia que a dor deveria ser sentida, e com isso, cresceu, amadureceu e aprendeu cada vez mais. Entendeu que a sinceridade é uma das pétalas que se foi tomada e que a verdade está escondida atrás das falsas risadas.

Talvez, na intensa bagunça da vida, ela tenha se perdido na incerteza, e deveria se importar? De fato, ela perdeu batalhas inúmeras vezes, mas não significa que estaria perdendo a guerra que lhe impuseram.

As pessoas precisam enxergar além dos olhos, ouvir não só com os ouvidos e se calar quando tiverem a chance. Mesmo sabendo disso tudo, ela tentou até o momento em que a escuridão dele a sufocava. Ela lutou por que queria ajudá-lo, conhecia suas qualidades e defeitos, seus demônios interiores, sua glória e dificuldades, então persistiu até toda a tortura a derrubar de vez e não conseguir levantar-se ou sustentar-se. Ela fez o que precisava ser feito, de forma errada ou certa, mas o necessário.

Ela o deixou “morrer” sozinho, pois finalmente entendeu que a batalha não era dela. Alguns poderiam dizer o quão dramática ela foi, e que lidariam bem melhor com a traição, mas ela o amava, e depois de algumas promessas, havia se entregado totalmente. E esse é o problema da decepção, você nunca a espera ou desconfia verdadeiramente.

A traição a trouxe sensações que poderiam ser tomadas como uma das piores de sua vida. Ela precisou de um tempo fora de alcance para se livrar do “lixo acumulado”. E depois desse tempo, ela teve medo de perder a cabeça, quando já tinha aguentado firme e chegado tão longe. Ela acreditava que a dor nunca iria embora e que teria de se acostumar com ela.

Sonhou com um novo amanhecer que fosse literalmente novo, e por um dia que não visse seus problemas como problemas, nem mágoas como mágoas. Ela esperou por um anoitecer sem tristezas e sem excessivas mentiras, sem o constante cortante desejo de dependência em algo corriqueiro. Esperava pelo simples desfrute do bem estar, tão escasso, de paz interior.

Ela queria um lugar a pertencer e que tudo de fato se superasse. Que encontrasse um novo abraço a se confortar. E que aquela dor, fosse embora.
Ela não queria quebrar espelhos novamente e nem se encontrar jogada ao chão, em poças de lágrimas derramadas de modo tão frugal.

Ela aprendeu que tudo se vai, nada é para sempre. Nem mesmo o palpitar incessante do coração apaixonado ou as pernas e mãos trêmulas de nervosismo, nem mesmo as dores que te insistem em relembrar e as lágrimas pelos mesmos motivos, nem mesmo a cicatriz que se demora a curar ou o tempo que se recuse a passar, por argumentos desconhecidos.

Detalhes não mudam o script , a história não perde sua essência e os pontos e vírgulas possuem os mesmos lugares de antes. Ela poderia apenas deixar com que as coisas grandes se tornassem banais e guardar as más paixões na gaveta.

Ela sofreu, mas aprendeu com isso. A dor se foi e ela enfim pode respirar novamente.

-Carol Lira


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