De alguma forma ela sempre soube o quanto relacionamentos
eram complicados, da mesma forma que tinha completa noção dos riscos que ela
correria. Afirmava que a base de um relacionamento era a confiança e na
confiança se manteve por um longo tempo. Determinada a viver o amor dos sonhos,
permaneceu na constante desventura de um amor exaurido e mentiras de longas
datas. Ela viveu contos esparsos e doou seu amor com tanta avidez até o último
segundo de toda aquela linda encenação.
Hoje ela se pergunta como ele a olhava nos olhos para fazer
insistentes promessas de amor. Ela não pôde suportar o imaculado orgulho e presunção
atirados na face dos sentimentos que, da parte dele, talvez nunca tenham
existido.
Foi uma traição dentre tantas outras, nenhuma menos dolorosa
que a antecedente, e a cada descoberta, ela podia facilmente sentir a dor aguda
em suas entranhas. Algo tão doloroso não devia chegar tão depressa e de
repente, sem aviso prévio, em um completo ortodoxo irrefutável, e como haveria
de ser diferente? Quem imaginaria que, em uma manhã fria de um domingo qualquer,
o seu príncipe encantado se tornaria o vilão? E que sua aparente vida
cinematográfica, não passasse de um jogo de tabuleiro que, para ele, ela seria
a peça mais facilmente manipulável?
Esse suposto amor sempre aparentou ser impossível, havia
muita divergência de pensamentos e princípios, mas apesar das evidências, ela
escolheu vivê-lo, até mesmo depois da percepção de tristeza que se alastrava tão
rapidamente por seu corpo.
Naquela noite, ela teve um sonho no mínimo estranho, repleto
de números e letras indecifráveis. Apesar da inocência ao amanhecer, não
demorou tanto para sua perspicácia associá-los a sua origem. Uma senha
desconexa, mas que levava à rede social de seu namorado, e assim depois de ler
algumas conversas, teve as provas de que precisava.
Deturpada em uma explosão de sentimentos envolvidos pela
decepção, tristeza, raiva e incredulidade, o telefone de casa pareceu tão
chamativo, que em míseros segundos ela se pegou discando para a casa dele. Seu
coração parecia querer saltar para fora do peito, as lágrimas ardendo em seus
olhos, ameaçando cair a qualquer momento, e seu rosto queimava tanto que ela
não sabia dizer em que momento desabaria. Como alguém que dizia amá-la tanto
poderia agir com tamanho desrespeito e sem o mínimo de consideração? Por mais
que fosse contra seus princípios, ela terminou o namoro ali mesmo, beirando as
lágrimas em um momento de desolação, por telefone que seria o único meio que
ele não poderia manipular com seu charme.
Os momentos seguintes foram agonizantes, o choro era como
ácido corroendo seu rosto e a súplica no abandono da dor era aterrorizante,
tudo que ela se permitiu fazer foi sentir cada resquício daquele momento, e
então ela encontrou o chão em meio a toda angústia, simplesmente adormeceu.
Acordou estirada no chão, com o evangelho entre as mãos,
enquanto a porta abria. Ele estava lá e incrédula ela o observou entrar.
Sentou-se ereta no chão e sem qualquer expressão facial o ouviu dizer tudo
aquilo que já sabia. Ele repetia que não a merecia e que havia sido um péssimo
namorado. Chorando, ele permaneceu repetindo o mesmo contexto de diferentes
formas, em meio a tapas consecutivos, que ele próprio aplicava em si ao
gaguejar.
Depois de todo o drama passado e de um pedido de segunda
chance, ela o concedeu e tentaram mais uma vez. Poderia se dizer que viveram
uma nova história de um verdadeiro amor e fidelidade, que ele aprendeu a lição
e eles permaneceram juntos até o fim, mas o que veio a seguir não passou de um
desastre e a vida dos dois poderia ser facilmente comparada ao inferno.
Mesmo acreditando-se que a base de um relacionamento é a tão
falada confiança, justamente a confiança era o que não existia mais. O
relacionamento se seguiu de consecutivas brigas, e mesmo depois de um episódio
como aquele, o namorado dela não soube aproveitar sua segunda chance.
Uma nova traição foi descoberta e o surto da garota foi
maior do que ela cogitaria ser possível. Dentre as revelações, ele dizia que
ela nunca conseguiria ter alguém melhor e caso houvesse um término, ela
possivelmente entraria em depressão. Afirmava ainda que estava com ela por pena
e como se já não bastasse a traía durante 1 ano e 3 meses que estiveram juntos.
Ela soube, com riqueza de detalhes, de cada traição e
argumentos que ele usava, e notou naquele momento o quão bom manipulador ele
era. Também percebeu o quanto estava infeliz ao lado dele, que a fazia
acreditar que sem ele, ela se afundaria em uma tristeza eterna.
Para não sofrer mais uma vez por suas manipulações, ela
terminou com o namorado sem dar argumentos, pois sabia que ele a confundiria.
Permitiu-se acreditar que não tinha a obrigação de agir de forma decente, já
que ele não havia feito o mesmo, assim levando a relação de reciprocidade
avidamente.
Por uma segunda vez, permitiu-se sentir toda a dor que caia
sobre ela, de alguma forma tão familiar, porém cada vez mais intensa. Era
verdade, finalmente, acabou. Os dias se
passaram e ela tentou ao máximo se distrair, mas não pôde evitar alguns
espelhos quebrados e gritos sufocados. Não pôde impedir novas lágrimas de se
formarem e erroneamente se depositarem em seu colo. Ela não seria capaz de
fazer o mesmo que ele, por esse motivo, não o compreendia, mas aceitou seu
desastre emocional com resignação.
Depois da saudade e tristeza, vieram à raiva e o rancor, enquanto que
hoje somente pena restou. Ela o perdoou silenciosamente, mas ele não queria
mais olhá-la, quanto menos cumprimentá-la.
Nunca aceitou traições, mas conseguiu tirar algo positivo de
toda a situação. Ela entendia que a dor deveria ser sentida, e com isso,
cresceu, amadureceu e aprendeu cada vez mais. Entendeu que a sinceridade é uma
das pétalas que se foi tomada e que a verdade está escondida atrás das falsas
risadas.
Talvez, na intensa bagunça da vida, ela tenha se perdido na
incerteza, e deveria se importar? De fato, ela perdeu batalhas inúmeras vezes,
mas não significa que estaria perdendo a guerra que lhe impuseram.
As pessoas precisam enxergar além dos olhos, ouvir não só
com os ouvidos e se calar quando tiverem a chance. Mesmo sabendo disso tudo,
ela tentou até o momento em que a escuridão dele a sufocava. Ela lutou por que
queria ajudá-lo, conhecia suas qualidades e defeitos, seus demônios interiores,
sua glória e dificuldades, então persistiu até toda a tortura a derrubar de vez
e não conseguir levantar-se ou sustentar-se. Ela fez o que precisava ser feito,
de forma errada ou certa, mas o necessário.
Ela o deixou “morrer” sozinho, pois finalmente entendeu que
a batalha não era dela. Alguns poderiam dizer o quão dramática ela foi, e que
lidariam bem melhor com a traição, mas ela o amava, e depois de algumas
promessas, havia se entregado totalmente. E esse é o problema da decepção, você
nunca a espera ou desconfia verdadeiramente.
A traição a trouxe sensações que poderiam ser tomadas como
uma das piores de sua vida. Ela precisou de um tempo fora de alcance para
se livrar do “lixo acumulado”. E depois desse tempo, ela teve medo de perder a
cabeça, quando já tinha aguentado firme e chegado tão longe. Ela acreditava que
a dor nunca iria embora e que teria de se acostumar com ela.
Sonhou com um novo amanhecer que fosse literalmente novo, e
por um dia que não visse seus problemas como problemas, nem mágoas como mágoas.
Ela esperou por um anoitecer sem tristezas e sem excessivas mentiras, sem o
constante cortante desejo de dependência em algo corriqueiro. Esperava pelo
simples desfrute do bem estar, tão escasso, de paz interior.
Ela queria um lugar a pertencer e que tudo de fato se
superasse. Que encontrasse um novo abraço a se confortar. E que aquela dor, fosse
embora.
Ela não queria quebrar espelhos novamente e nem se encontrar
jogada ao chão, em poças de lágrimas derramadas de modo tão frugal.
Ela aprendeu que tudo se vai, nada é para sempre. Nem mesmo
o palpitar incessante do coração apaixonado ou as pernas e mãos trêmulas de
nervosismo, nem mesmo as dores que te insistem em relembrar e as lágrimas pelos
mesmos motivos, nem mesmo a cicatriz que se demora a curar ou o tempo que se
recuse a passar, por argumentos desconhecidos.
Detalhes não mudam o script , a história não perde sua essência
e os pontos e vírgulas possuem os mesmos lugares de antes. Ela poderia apenas
deixar com que as coisas grandes se tornassem banais e guardar as más paixões na
gaveta.
Ela sofreu, mas aprendeu com isso. A dor se foi e ela enfim pode
respirar novamente.
-Carol Lira

nossa.. ficou muito bom....
ResponderExcluirObrigada :3
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